terça-feira, 12 de maio de 2009

Por que a “(ex-)esquerda” pensa que somos ignorantes e desinformados? [Resposta a uma mensagem]

Paulo Stekel



Ontem, 11 de maio, recebemos uma mensagem de uma pessoa, que identificaremos apenas pelas iniciais B. A., inquirindo acerca de nossa “ignorância” sobre a questão tibetana. Lendo a mensagem, percebemos claramente ali o pensamento da (ex-)esquerda brasileira, que flerta com a ditadura chinesa há muito tempo. Tanto é assim, que tal (ex-)esquerda não apóia a questão tibetana e defende a China com unhas e dentes. Acaso esperariam eles implantar em nosso país a treva maoísta que ceifou milhões de vidas sob os olhos apáticos da ONU? Sonho bizarro!!!

Abaixo, a mensagem que nos foi enviada, resguardada a identificação do autor:


Date: Mon, 11 May 2009 21:47:46 -0700
From: X
Subject: XXXXXXXXXXXX
To: paulostekel@hotmail.com

Paulo Stekel,
Grato por responder prontamente.
De qualquer modo, foi a segunda vez que vi teu nome em material enviado pela internet. Da primeira vez, li e decidi esperar. Agora, escrevi, pois não esqueci o que li da primeira vez. Como é importante, resolvi responder. É sobre o Tibete.
Ignoro que tipo de coisas fazes. O que me incomoda no tema Tibete, é o desconhecimento de milhões de pessoas, no mundo inteiro, da História daquela região centro-asiática, e o modo inconseqüente como se posicionam. Sugiro que leias O Drama da Ásia, de John Gunther, jornalista estadunidense, edição Globo, de décadas atrás. O autor escreveu diversos livros, encontráveis em sebos, e no caso do citado, há mapa e explicação detalhada sobre a situação na década de 30 do século XX. Sugiro também consulta a qualquer Atlas de História, e vais encontrar sempre a mesma coisa. Que os EUA e a Inglaterra distorçam as coisas, buscando manter a dominação sobre o planeta, posso entender, é a lógica de quem tem a força. No entanto, aceitar acriticamente, sem buscar outras informações, acho estranho. O curioso é que há gremistas e colorados agindo assim, diferente do modo como agem se o assunto for a rivalidade GreNal. Por que é mais importante o GreNal do que conhecer a História e se posicionar após romper a ignorância?
Respeitosamente,
B.


O autor cita o GreNal (Grêmio X Internacional), por ser provavelmente do RS. O GreNal é o principal clássico do futebol gaúcho.

Abaixo, a resposta que lhe enviamos, e que aqui publicamos por dois motivos:

1º – Para servir de argumento aos nossos apoiadores e para que saibam o que pensam os cidadãos de nossa (ex-)esquerda.

2º – Para que saibam um pouco do meu pensamento particular sobre o assunto, independente da posição do Dalai Lama e do Governo Tibetano em Exílio.

Prezado B.,

Na verdade, no momento, sou o Coordenador Geral do Movimento Tibete Livre - Brasil, que em nosso país representa a ONG inglesa "Free Tibet Campaign" (Londres). Sou praticante do Budismo Vajrayana (incorretamente chamado de Budismo Tibetano, pois nasceu na Índia) desde 1995 e, desde então, tenho pesquisado intensamente a realidade do povo tibetano. Também sou escritor, jornalista, músico e estudante de línguas antigas e modernas, falando várias, escrevendo em algumas e lendo em umas dez. Já li mais de dez mil livros em meus 38 anos de vida, em várias línguas e sobre os mais variados assuntos, inclusive sobre História. Portanto, como você pode notar, não sou um idiota nem um papagaio que sai repetindo o que os "camaradas" pregam.

Mas, respondendo de forma sucinta algumas de suas colocações:


"Ignoro que tipo de coisas fazes. O que me incomoda no tema Tibete, é o desconhecimento de milhões de pessoas, no mundo inteiro, da História daquela região centro-asiática, e o modo inconseqüente como se posicionam."

Concordo plenamente. É exatamente este desconhecimento que faz com que, no Brasil, questões políticas estejam impedindo um maior engajamento das pessoas na luta do povo tibetano por direitos humanos respeitados. A China é o país que mais executa no mundo, e isso é feito após julgamentos duvidosos ou mesmo sumariamente. Isso não condiz com democracias, mas com ditaturas. Não sou a favor de ditaduras jamais!

"Sugiro que leias O Drama da Ásia, de John Gunther, jornalista estadunidense, edição Globo, de décadas atrás. O autor escreveu diversos livros, encontráveis em sebos, e no caso do citado, há mapa e explicação detalhada sobre a situação na década de 30 do século XX. Sugiro também consulta a qualquer Atlas de História, e vais encontrar sempre a mesma coisa. Que os EUA e a Inglaterra distorçam as coisas, buscando manter a dominação sobre o planeta, posso entender, é a lógica de quem tem a força. No entanto, aceitar acriticamente, sem buscar outras informações, acho estranho."

Como coordenador representante do Free Tibet Campaign no Brasil, obviamente conheço o livro do qual você fala e vários outros, prós e contra-Tibete. Já confrontei ambos os tipos de fontes, mesmo porque entre nós trocamos "figurinhas" o tempo todo, para que sejamos defensores conscientes e não massa de manobra, como ocorre infelizmente com o povo chinês dominado por sua ditadura orwelliana.

"O curioso é que há gremistas e colorados agindo assim, diferente do modo como agem se o assunto for a rivalidade GreNal. Por que é mais importante o GreNal do que conhecer a História e se posicionar após romper a ignorância?"

Isso tem a ver com o que chamo de "estratificação sobreposta à polarização do idealismo de emoção". Ser gremista OU colorado, prótibete OU contratibete, petista OU "o resto", chavista OU obamista, tudo isso pode conviver pacificamente entre as pessoas, pois na maior parte das vezes as escolas são de natureza emocional, por imposição familiar ou por pressão, raramente por consciência. É isso que não queremos quanto à questão tibetana. Atualmente os movimentos prótibete não pedem mais a independência do Tibete, pois isso parece impossível no momento sem muito derramamento de sangue. Centramos nossas atividades, então, na questão dos direitos humanos no Tibete, o que é perfeitamente aceito por pessoas de bom senso e um mínimo de amor pela vida humana. Não entramos em polêmicas de Dalai Lama, Hu Jin Tao e camarilhas porque nem sequer participamos das conversações obscuras e cheias de manobras de todos os envolvidos na questão política do Tibete. Queremos preservar os direitos humanos do povo tibetano, que é sempre o prejudicado, seja quem for o governante. A China é uma ditadura e tenho absoluta certeza disso! Quando trabalhei em Brasília, junto a uma ONG que produz programas de TV, tive a oportunidade de obter informações diretas de como a embaixada chinesa chantageou meu próprio patrão para que ele tirasse do ar qualquer referência ao Tibete e ao Dalai Lama, sob a alegação de que, se não o fizesse, não entraria na China para filmar um congresso. As informações detalhadas do fato já foram repassadas aos interessados ligados ao Governo Tibetano em Exílio.

Acho uma covardia a China atacar o Dalai Lama da forma como o faz, como se ele, não possuindo exércitos, representasse alguma ameaça ao grande dragão vermelho armado até os dentes e que não poupa nem os seus filhos. A questão do Dalai Lama termina quando ele morrer, sabemos disso! Mas os direitos humanos do povo tibetano continuarão sendo desrespeitados, talvez até mais, também o sabemos. E não ficaremos calados frente a isso! Se não queremos em nosso solo o banho de sangue do holocausto tibetano, devemos começar por gritar contra a impunidade agora! Gritar por direitos humanos é, sim, uma atitude pacífica, mas eficaz. A voz da consciência humana é contagiosa e tem mais poder que as armas, assim o prova a História, que você dá a entender conhecer tão bem.

Creio ter lhe deixado bem claro meu pensamento, que ainda que seja uma explanação pessoal, reflete em muito o que se pensa nos movimentos prótibete pelo mundo afora.

De minha parte, considero o assunto encerrado e não o debaterei mais, uma vez que você já tem as informações que julga necessárias e tem seu pensamento definido sobre a questão. Continuar o debate seria mais desgastante que proveitoso.

Fraternalmente,

Paulo Stekel
(Coordenador Geral - Tibete Livre - Brasil)

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