quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Tibete, seis meses depois: “Não há liberdade aqui”

Tradução de vídeo postado em "The Guardian", feita por Marcelo Godoy (tradutor, intérprete e jornalista), especialmente para "Tibete Livre - Brasil"

Seis meses após os protestos fatais contra o domínio chinês, há sinais de vida normal em Lhasa. Ainda assim, muitos tibetanos vivem em estado de medo.

Link para o vídeo:


A capital do Tibete está sob rígido aparato de segurança, mais de seis meses após os protestos que ocorreram em toda a cidade. Há policiais armados vigilantes em todos os principais pontos turísticos, com patrulhas espalhadas pelo centro de Lhasa.

O chefe da polícia local e um dos vice-governadores da região foram assaltados na semana passada. Não houve comentário oficial a esse respeito.  

Importantes autoridades locais afirmam que a situação no Tibete agora é "estável" e "normal". Mas a intensa presença de forças policiais paramilitares sugere que há preocupações quanto a possíveis novos surtos de violência. Poderão ocorrer no ano que vem, na comemoração dos 50 anos do fracassado levante contra o domínio chinês, que provocou o vôo do Dalai Lama em direção ao exílio.

Autoridades chinesas afirmam que 23 pessoas morreram nos protestos do dia 14 de março. Mas organizações no exílio garantem que centenas de tibetanos foram mortos nos confrontos em Lhasa e em outras regiões da China. Representantes dessas organizações alegam que é impossível constatar com precisão o número de vítimas, devido à censura.

“The Guardian” é o primeiro jornal britânico autorizado a viajar para o Tibete desde março. As ruas estreitas de Lhasa agora têm movimento intenso, de comerciantes, peregrinos e pequenos grupos de turistas estrangeiros. Mas, de acordo com um morador, o clima permanece tenso e a maior parte da atividade religiosa atualmente é clandestina. Policiais paramilitares, equipados com armas, bastões e escudos antichoque, estão posicionados ao longo da região central da cidade.

Autoridades locais dizem que a economia foi afetada pela violência, com o crescimento anual de 7,4%, registrado no primeiro semestre de 2008. O crescimento médio anual nos últimos cinco anos era de 12,7%.

"O incidente de 14 de março teve um impacto muito negativo no desenvolvimento econômico e social", afirmou Hu Xinsheng, diretor-adjunto da comissão de desenvolvimento e reformas do Tibete.

O efeito nos negócios do turismo na região tem sido especialmente acentuado, ainda mais porque o Tibete ficou fechado aos turistas estrangeiros por três meses. “O 14 de Março teve impacto muito negativo na imagem do Tibete, que sempre foi a de um lugar seguro e belo", disse Yu Yungui, diretor-adjunto da Secretaria de Turismo local. "Vocês têm visto policiais em alguns dos locais mais panorâmicos. Mas essa é uma situação temporária."

No ano passado mais de 4 milhões de pessoas visitaram o Tibete, gastando quase 5 bilhões de yuans (equivalente a mais de R$ 1,5 bilhão). Para 2008, a expectativa era de até 5 milhões de turistas, mas somente a metade desse total deverá aparecer por lá.

O governo chinês tem planos de investir como nunca na região. Mas muitos acreditam que o acelerado desenvolvimento econômico ajudou a deflagrar o conflito ocorrido esse ano. Com o aumento do padrão das condições de vida, muitos tibetanos acreditam que os migrantes chineses acabaram colhendo os maiores benefícios – especialmente desde a inauguração da ferrovia, em 2006. Os tibetanos temem que essas mudanças estejam erodindo sua cultura tradicional.

Hoje em dia, Lhasa apresenta uma curiosa mistura de etnias e de eras diferentes: ambulantes com carrinhos de mão vendem nacos de manteiga caseira feita do leite de vacas iaque, enquanto ali por perto vitrines reluzentes anunciam produtos da Nike. Nas ruas pode-se ouvir tanto o Tibetano quanto o Chinês.

Os governantes locais rejeitam a idéia de que o levante de março foi de alguma maneira influenciado por causas sociais, econômicas ou culturais. Mas uma autoridade do primeiro escalão acredita que jovens urbanos desempregados aparentemente foram estimulados a participar do levante.

"Foi um incidente provocado por um pequeno número de marginais fora-da-lei, perpetrado e organizado pela turma do Dalai, que quer destruir a unidade nacional do Tibete", segundo Yu. (O Dalai Lama nega qualquer tipo de envolvimento com a violência e diz que apenas busca a autonomia para o Tibete.)

Houve tempo livre para fazer a reportagem andando pelas ruas, dentro da programação estabelecida para o “The Guardian” pela secretaria de relações exteriores do Tibete. Mas poucas pessoas nas ruas queriam falar ao jornal, devido ao grande aparato de segurança na região, o que inclui informantes e câmeras de TV em circuito fechado.

Um homem da etnia Han perguntou se o “The Guardian” tinha algo contra o povo chinês. Mas também disse que os britânicos podem falar o que quiserem, uma atitude que é perigosa em Lhasa. Quando lhe perguntamos se essa vigilância se deve ao levante de março, ele respondeu: "Mesmo se estiver nevando, você não pode dizer que está nevando."

Um monge numa casa de chá parecia disposto a falar. Mas, segundos depois, seu olhar se desviou quando percebeu a presença de um homem na entrada do recinto. "Desculpe, não entendo o que você diz", concluiu o monge, abruptamente.

Grupos no exílio afirmam que a "educação patriótica" nas escolas e mosteiros – que exige dos tibetanos a garantia de lealdade ao estado e também denúncias contra o Dalai Lama – foi um dos motivos que levaram aos protestos pacíficos, anteriores à violência que ocorreu em março. Depois disso tudo o governo vem intensificando essas lições cívicas.

"Os monges nos mosteiros estão muito felizes e gratos em relação à política e à assistência do governo", disse Qiang Qiong Ci Wang, da secretaria de assuntos religiosos e étnicos.

Quando lhe foi perguntado sobre o que aconteceu aos 30 lamas no templo de Jokhang, que chegaram às manchetes mundiais em março de 2008 ao interromperem uma visita oficial dizendo aos repórteres que não dispunham de liberdade religiosa, Wang disse que nunca ouvira falar do incidente. Na ocasião desses protestos, as autoridades locais disseram que os monges não seriam punidos. Desde então, ninguém mais conseguiu falar com os monges.

O aparato de segurança nas províncias vizinhas, que também foram atingidas pelo levante tibetano em março, é geralmente menos ostensivo se comparado ao que ocorre no Tibete. Mesmo assim, em Qinghai muitos são os que têm medo de falar à imprensa. Mas um lama da região disse que as queixas em relação à discriminação religiosa levaram a confrontos diretos, batidas policiais em mosteiros e detenções em massa, antes mesmo do fatídico mês de março.

"Nós tibetanos não temos liberdade – não temos direito de dizer uma palavra sequer", disse o lama de Qinghai. "É isso o que está acontecendo. No momento não há liberdade de espécie alguma."

Tradução: Marcelo Godoy (tradutor, intérprete e jornalista)

1 comentários:

Patrícia de Oliveira disse...

Não percebo. Por mais que tente, não consigo perceber as razões do regime chinês para tanto conflito, vigilância e destruição da cultura tibetana.
For God sake, deixem o Tibete em paz, ou melhor, libertem-no!! A China não tem condições morais para dominar um povo como o povo tibetano e uma religião como o budismo!
FREE TIBET ! Chega de abusos!