Se Gandhi fosse tibetano e estivesse vivo, qual seria sua atitude frente à dominação chinesa no Tibete? Queimaria todos os produtos made in China que pudesse juntar, tal como fez com os produtos têxteis ingleses na década de 30 como meio de luta pela independência indiana? Provavelmente não, mas apenas por uma questão ambiental. Reuniria os tibetanos exilados para uma grande caminhada de volta ao Tibete? Protestaria em frente às milícias chinesas incansavelmente até ser preso diversas vezes? - e se diria orgulhoso de tal, como disse por ter sido preso sete vezes pelos britânicos? Suposições, apenas, suposições, porque não se pode imaginar o que a genialidade do maior líder popular da história contemporânea faria para resgatar a autonomia do Tibete nos tempos de hoje.
Se pensarmos em fundamentos de luta social, tanto a ideologia gandhiana como a que vem sendo desenvolvida pelos tibetanos, em especial por seu líder maior, Dalai Lama, possuem as mesmas características de não-violência e de verdade. Trata-se de exemplos de luta social que compõem um dos maiores legados à humanidade, pois como disse Albert Einstein “futuras gerações dificilmente acreditarão que tenha passado sobre a face da Terra, em carne e osso, um homem como Gandhi”. O mesmo pode-se dizer sobre Dalai Lama.
O maior presente que Gandhi deu aos indianos não foi ter desencadeado a libertação da Índia de um império sanguessuga. Não obstante Mahatma, ou a Grande Alma, ter sido o principal artífice desta conquista, pode ser atribuído a ele um legado ainda mais expressivo, de caráter espiritual e de valor inestimável: a união do povo indiano. A Índia é um verdadeiro caldeirão fervente de mais de um bilhão de pessoas, a grande maioria devoto fervoroso de alguma das principais religiões do mundo: Islamismo, Catolicismo, Hinduismo, além do Sikismo, Budismo, Krishnismo e tantos outros credos sempre com milhões de seguidores. A devoção religiosa é um dos pilares-mestre na vida do indiano. Se levarmos em consideração a parcela de radicais fundamentalistas que cada um destes credos tem - com as variações de violência de um credo para outro - podemos ter uma noção do volume de ‘guerra santa’ que existiria na Índia de hoje, caso a presença apaziguadora de Gandhi não tivesse existido. O atual conflito inter-religioso em solo indiano, apenas circunstancialmente preocupante, teria proporções avassaladoras, arrisco a dizer até inviabilizadora de uma identidade nacional sem que Gandhi tivesse deixado sua marca inconfundível: o apelo pela união e respeito mútuo entre os indianos. A criação de um estado predominantemente islâmico, o Paquistão, foi um arranjo político não desejado por Gandhi como meio de independência da Índia. Ele sempre quis os indianos marchando de mãos dadas, num só canto, independente do deus adorado por cada um.

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