domingo, 19 de outubro de 2008

A Causa Tibetana é a Causa Chinesa

(José Henrique Fardin, autor do livro "A Compaixão Pelo Rato - O Romance da Libertação do Tibete" - Email:contato@acompaixaopelorato.com.br)

China e Tibete estão em conflito desde 1949, quando 40 mil soldados chineses liderados por Mao Tse Tung ocuparam o território tibetano, passando a controlar a região com a força das armas. As conseqüências para o povo invadido são bem conhecidas, ressalta-se, porém, a morte de 1,2 milhões de tibetanos, exílio de 150 mil deles e danos severos a sua identidade cultural, uma vez que mais e mais chineses ocupam o Tibete a cada ano, tornando o povo local numa minoria marginalizada. Aqueles que acreditam que os tibetanos possam escapar do jugo chinês e retomar sua autonomia são taxados de românticos e idealistas, o que não deve ser tomado como grande ofensa, afinal a mesma imputação recaiu sobre Mahatma Gandhi acerca da independência indiana. Ademais, vale lembrar um preceito budista que sustenta que todas as coisas mudam, que tudo é IMPERMANENTE. Portanto, a situação tibetana atual mudará inevitavelmente. O grande desafio que se impõe é que ela mude para melhor. E o quanto antes. 

O assunto tem gerado debates acalorados, por vezes, até mesmo aqui no Brasil. Ocorre que, no calor da emoção, alegam-se razões que pouco ou nada contribuem para o melhor entendimento do problema e a busca de uma solução. Uma delas diz respeito à suposta pretensão de INDEPENDÊNCIA por parte dos tibetanos, o que nada mais é do que um equívoco de interpretação sobre os apelos do povo invadido. Há mais de 20 anos, o povo tibetano, por intermédio de seu líder maior, Dalai Lama, não pleiteia mais a independência política total, como detinha antes da invasão, mas um sistema unificado com a nação-mãe China que garanta o efetivo respeito aos direitos humanos do povo dos himalaias, para que vivam sua cultura como entenderem melhor. Por isso, não há que se falar em separatistas tibetanos, expressão muitas vezes argüida por respeitados jornalistas e historiadores brasileiros. Outro tema merecedor de luzes versa sobre a existência ou não de um sistema teocrático escravagista no Tibete antes da invasão chinesa. Alegam, os do lado chinês, que a luta tibetana visa re-implantar esta nefasta forma e sistema de governo. Primeiramente, trata-se de situações empoeiradas, localizadas há quase 60 anos atrás. Todavia, mesmo se admitirmos que houvesse tal realidade no Tibete até 1950 - o que é crível na medida em que o próprio Dalai Lama reconhece que as relações institucionais tibetanas daquela ocasião não eram as mais avançadas - pensar que os tibetanos se prestariam a tal retrocesso é o mesmo que dizer que eles não aprenderam nada durante os últimos 60 anos, o que seria uma falácia. O exílio trouxe a oxigenação das idéias, um lado positivo da invasão. Prova disto é que no atual governo tibetano no exílio, sediado em Dharamsala, Índia, a democracia rege as relações políticas entre os refugiados. Há parlamento e primeiro-ministro eleitos diretamente. Portanto, também cai por terra o argumento de que os tibetanos querem voltar a sistemas que não contemplem os direitos políticos universais do ser humano. 

A China, por sua vez, é palco de cerca de 100 mil rebeliões sociais a cada ano. Ressalta-se: 100 mil por ano, entre protestos por liberdades de imprensa, sindical, informação, contra a violência estatal, a corrupção, a desigualdade social, os impostos penalizando os trabalhadores rurais, os direitos humanos no Tibete, etc. Pesquisa da Universidade Normal de Pequim apontou que quase 70% dos jovens nutrem aversão por seu país, ou pela absurda concorrência econômica interna ou pela repressão estatal. Um indicativo preciso do autoritarismo do governo chinês é o agenciamento de 400 mil espiões para o período das Olimpíadas de Pequim. O governo, de tão preocupado com o crescente inconformismo da população, lançou a campanha Sociedade Harmoniosa, com a qual pretende atenuar as injustiças e/ou calar à força os protestantes, como temem muitos chineses. 

Este retrato da China tem muito a ver com a causa tibetana. Como já afirmado, o pleito do povo do Tibete não é a separação ou a independência, mas sim condições de viver sua própria cultura livremente, em especial sua religião, com efetivo respeito aos seus direitos humanos. Vista sob este prisma, pode-se dizer que a causa tibetana é a causa chinesa. Ambas querem a mesma coisa: democracia e direitos humanos. Entendendo o conflito assim, o debate se ameniza e o caminho de solução passa a ser mais nítido.

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